Onze dias consecutivos de queda, saída bilionária de ETFs e pressão macroeconômica redesenham o cenário do ativo mais valioso do mundo
Quem acompanha o Bitcoin há mais de um ciclo sabe que as oscilações bruscas fazem parte da natureza do ativo. Mas a sequência de quedas registrada em 2026 tem chamado atenção até dos observadores mais experientes. Depois de bater recordes históricos no segundo semestre de 2025, o BTC recuou mais de 30% no acumulado do ano e opera atualmente na faixa de US$ 61 mil a US$ 66 mil, dependendo da sessão. O que mudou? Por que investidores que pareciam inabaláveis começaram a realizar posições? E, principalmente, onde estão os suportes que o mercado monitora para o próximo movimento? Essas perguntas estão no centro do debate entre analistas, gestores e entusiastas neste momento.
O papel dos ETFs e das saídas institucionais na queda do BTC
A criação dos ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos foi celebrada como um marco histórico para a adoção institucional da criptomoeda. E de fato foi: eles atraíram dezenas de bilhões de dólares em poucos meses e foram um dos combustíveis mais potentes para a alta de 2024 e 2025. O problema é que a lógica funciona nos dois sentidos: quando o dinheiro institucional entra, o preço sobe; quando sai, a pressão vendedora é imediata.
De acordo com dados divulgados pelo Investidor10, os ETFs de Bitcoin nos EUA acumularam US$ 3,4 bilhões em saídas líquidas nas últimas semanas, contribuindo diretamente para onze dias consecutivos de baixa na cotação. Esse é um dos maiores períodos de saída contínua registrados desde o lançamento dos produtos. O movimento reflete uma combinação de realização de lucros por parte de investidores que entraram antes ou durante o rali de 2025, além de reposicionamento de portfólio em um ambiente de juros ainda elevados.
A questão que o mercado debate agora é se essas saídas refletem uma mudança de tese em relação ao Bitcoin ou apenas um ajuste tático dentro de uma estratégia de longo prazo. A maioria das casas de análise consultadas tende a interpretar o movimento como o segundo cenário, mas admite que novas saídas significativas poderiam ampliar a pressão sobre o preço no curto prazo. O comportamento dos grandes gestores americanos nas próximas semanas será observado de perto como termômetro para a direção do ativo.
Outro elemento que contribuiu para o sentimento negativo foi o movimento da Strategy. A empresa, reconhecida por acumular Bitcoin como ativo de reserva em seu balanço, informou ao mercado que vendeu 32 unidades do ativo em uma operação que gerou US$ 2,5 milhões. O montante é pequeno frente ao total acumulado pela companhia, mas o gesto simbólico pesou sobre a percepção de que os grandes compradores estruturais seguiriam comprados a qualquer preço, independentemente das condições de mercado.
Onde estão os suportes e o que os dados técnicos indicam
O nível de US$ 60 mil se tornou a referência mais observada pelo mercado nas últimas semanas. Segundo análise publicada pelo portal Vietnam.vn, caso o Bitcoin não consiga se sustentar nessa região, o próximo teste relevante estaria próximo de US$ 53 mil a US$ 55 mil, de onde o ativo poderia tentar nova estabilização antes de qualquer movimento de recuperação.
A análise da Litefinance, com base no gráfico semanal do BTC, identificou a formação de um padrão técnico denominado Falling Three Methods, cuja terceira fase estaria se desenvolvendo. O indicador MACD opera em queda dentro do território positivo, aproximando-se da linha zero, o que sinaliza fortalecimento do momentum bearish. Já o RSI se encontra em torno de 35, nível que historicamente antecede movimentos de maior volatilidade, seja para baixo ou para cima.
Do ponto de vista on-chain, os dados da Glassnode mostram que detentores de longo prazo responderam por cerca de 59% do total de vendas recentes, o que representa uma quebra de comportamento em relação aos ciclos anteriores, nos quais esse grupo costumava segurar as posições com mais convicção durante as correções. O total de perdas realizadas chegou a US$ 1,3 bilhão por dia quando o BTC operou próximo de US$ 62 mil, segundo análise da Vaul Capital citada pelo InfoMoney. Esses números indicam um mercado em processo de limpeza, mas ainda longe de capitulação total.
Qualquer análise de preço em criptomoedas envolve alto grau de incerteza. O histórico do ativo mostra que os movimentos podem ser intensos em ambas as direções em intervalos curtos de tempo, e nenhuma análise técnica elimina esse risco.
Por que o momento pede atenção redobrada ao contexto macro
O preço do Bitcoin nunca existiu em um vácuo. Ele responde ao ambiente global de liquidez, às decisões dos bancos centrais e ao apetite de risco dos investidores de todas as classes de ativos. Em 2026, o cenário macroeconômico acumulou uma série de fatores desfavoráveis que pesaram sobre o ativo de forma consistente.
A decisão do Federal Reserve de manter os juros entre 3,50% e 3,75%, sem sinalizar cortes para 2026, foi apontada por especialistas como o principal vetor macroeconômico da queda. Segundo Julia Santos, especialista em Ativos Digitais da InvestSmart XP e fundadora da Contadora Cripto, entrevistada pelo Melhor Investimento, esse cenário incentiva a realocação do capital para renda fixa e caixa, reduzindo a atratividade relativa de ativos como o Bitcoin. A lógica é simples: quando o dinheiro rende bem sem risco, ele naturalmente migra para alternativas mais seguras.
A tensão geopolítica no Oriente Médio foi outro elemento citado por analistas. A percepção de que o conflito no Irã pode pressionar a inflação em economias avançadas reduziu as expectativas de afrouxamento monetário em vários bancos centrais, incluindo no Brasil, onde a Selic permanece em patamar elevado. Esse ambiente de juros globalmente altos reduz a liquidez disponível para o mercado cripto de forma estrutural, não apenas pontual.
Para os próximos meses, o mercado aguarda qualquer sinalização do Fed sobre possíveis cortes de juros, além dos resultados das eleições de meio de mandato nos EUA, que podem alterar o ambiente regulatório para os ativos digitais. O Bitcoin já demonstrou capacidade de recuperação expressiva após correções desta magnitude em ciclos anteriores, mas cada ciclo tem suas particularidades. O risco permanece elevado, e qualquer decisão de investimento deve considerar a tolerância individual a perdas e o horizonte de tempo do investidor.
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Autor: Diego Rodríguez Velázquez