Ernesto Kenji Igarashi, especialista em segurança institucional e proteção de autoridades, pontua que existe uma diferença fundamental entre um profissional de segurança que foi treinado e um profissional que treina. O primeiro acumulou conhecimento em algum momento do passado. O segundo mantém esse conhecimento vivo, atualizado e aplicável. Em um campo onde ameaças evoluem, tecnologias mudam e cenários se tornam cada vez mais complexos, a distinção não é semântica: ela separa o profissional que responde bem do profissional que responde bem quando mais importa.
Para quem atua na área ou investe na formação de equipes de proteção, o que vem a seguir é leitura essencial. Confira!
Por que habilidades técnicas se deterioram sem prática regular?
O cérebro humano não armazena habilidades motoras e procedimentais da mesma forma que armazena conhecimento declarativo. Uma informação factual, como uma data histórica ou um conceito teórico, pode ser retida por anos sem revisão. Uma habilidade técnica que exige coordenação motora, tomada de decisão rápida e execução precisa sob pressão se degrada em semanas se não for praticada. Segundo Ernesto Kenji Igarashi, esse fenômeno, documentado pela psicologia cognitiva como decaimento de habilidade, tem implicações diretas para qualquer área que dependa de desempenho técnico em condições adversas.
Para profissionais de segurança, as consequências são especialmente relevantes. As técnicas de controle, procedimentos de resposta a ameaças, protocolos de evacuação e habilidades de condução em situações de risco precisam de prática recorrente para permanecer disponíveis no nível de automatismo necessário. Quando são executadas apenas em situações reais, sem simulação regular, o profissional opera com uma versão degradada de sua própria capacidade, o que eleva o risco para si e para quem está sob sua proteção.
Os programas de treinamento mais eficazes constroem suas grades com base nesse entendimento. A frequência de treino é calibrada conforme a criticidade de cada habilidade: as mais essenciais e mais perecíveis recebem maior repetição. Conforme destaca o ex-coordenador da equipe tática da Polícia Federal, Ernesto Kenji Igarashi, isso não significa treinar tudo o tempo todo, mas sim priorizar com inteligência o que precisa de reforço mais frequente e o que pode ser revisado em ciclos mais longos sem perda significativa de proficiência.

O que distingue um programa de treinamento técnico realmente eficaz?
Ernesto Kenji Igarashi expõe que a qualidade de um programa de treinamento não se mede pelo volume de horas nem pela sofisticação dos equipamentos utilizados. Mede-se pela transferência, ou seja, o quanto do que foi aprendido em ambiente controlado se manifesta como desempenho real em cenário operacional. Programas com alta transferência compartilham algumas características estruturais, como a fidelidade ao contexto real, progressão de complexidade bem calibrada e integração entre competências técnicas e tomada de decisão.
A fidelidade ao contexto real significa que os cenários de treinamento reproduzem, tanto quanto possível, as condições físicas, cognitivas e emocionais do ambiente operacional. Treinar técnicas de proteção em ambiente silencioso, com luz adequada e sem pressão de tempo produz proficiência naquelas condições específicas. Treinar as mesmas técnicas com ruído, restrição de visibilidade, presença de civis e tempo reduzido produz uma proficiência que sobrevive às condições reais.
Competências que o treinamento técnico precisa desenvolver além do óbvio
Profissionais de segurança de alto nível precisam de muito mais do que habilidades táticas. O repertório de competências que define um operador verdadeiramente preparado inclui dimensões que muitos programas de treinamento ainda tratam como secundárias: consciência situacional avançada, comunicação precisa sob pressão, tomada de decisão em condições de informação incompleta e capacidade de gerenciar o próprio estado emocional em situações de alta intensidade.
A consciência situacional, definida de forma simples como saber o que está acontecendo ao redor antes que aconteça, é talvez a competência mais valiosa em ambientes operacionais críticos. Ela é desenvolvida por meio de treinamento específico que exercita a capacidade de processar múltiplos estímulos simultaneamente, identificar padrões de comportamento fora do normal e projetar como uma situação vai evoluir nos próximos segundos ou minutos. Não é intuição, é uma habilidade cognitiva treinável com metodologia adequada, comenta Ernesto Kenji Igarashi.
A gestão do estado emocional sob pressão é outra dimensão frequentemente negligenciada. Técnicas de regulação fisiológica, como controle da respiração, que têm base sólida em pesquisa sobre desempenho sob estresse, permitem que o profissional mantenha o acesso às funções cognitivas superiores mesmo em situações de alta ativação. Por fim, Ernesto Kenji Igarashi considera que integrar essas técnicas ao treinamento técnico, em vez de tratá-las como conteúdo separado de desenvolvimento pessoal, produz profissionais que executam bem não apenas no treino, mas nos momentos que realmente definem o resultado.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez