Uma loja que vende bem costuma ter um segredo simples: o dono está lá. Fredy Restrito, CEO da Litoral Mobilidade, frisa que esse dono conhece o cliente pelo nome, resolve a troca no balcão e negocia o prazo com o fornecedor. Quando a empresa decide crescer por meio de franquia, esse segredo vira problema, porque o franqueado compra a marca e o método, não a presença do fundador.
É o desafio que Fredy da Silva Gonçalves Bento, nome de Fredy Restrito, comenta que diversas empresas enfrentam no Brasil hodierno. O projeto atual da rede de lojas de mobilidade elétrica do litoral paulista é transformar o conhecimento em varejo, assistência técnica, importação, distribuição e gestão de lojas em uma rede de franquias com expansão nacional. Veja, a seguir, as etapas que separam uma operação regional bem-sucedida de uma franqueadora.
Primeiro passo: tirar o método da cabeça do fundador
Como se recebe um lote de mercadoria? Quem testa o produto antes da entrega? Em que momento o vendedor registra a garantia? Em muitas empresas regionais, essas respostas existem, mas só na rotina de quem está há anos na operação.
O manual de operações é o documento que converte essa experiência em procedimento. Ele descreve atendimento, estoque, pós-venda, preço e padrão visual com detalhe suficiente para que alguém de outra cidade execute o mesmo trabalho sem telefonar para a matriz a cada dúvida.
Segundo passo: testar o modelo numa unidade-piloto
Uma unidade-piloto administrada por um gerente, seguindo apenas o manual, funciona como teste de realidade. Se as vendas e a satisfação do cliente caem quando o fundador se afasta, o método ainda não está documentado. Está apenas na memória de quem o criou.
Esse teste também revela custos que o dono não enxergava. Tempo de treinamento, perda de margem nos primeiros meses e retrabalho no pós-venda entram na conta e ajudam a definir taxa de franquia e royalties com base em números reais, e não em estimativa otimista.
Terceiro passo: montar a estrutura que abastece a rede
Um franqueado em outra cidade sem peça de reposição é um cliente insatisfeito na porta da loja, e a reclamação recai sobre a marca inteira. Por isso, a franqueadora precisa garantir abastecimento antes de vender a primeira unidade. Na Litoral Mobilidade, essa base inclui centro de distribuição próprio com mais de 2.000 m², estoque de aproximadamente R$ 8 milhões e atuação com importação, estrutura que sustenta o plano de expansão conduzido pelo empresário.
Em segmentos técnicos, como o de veículos elétricos, a exigência é maior. Conforme avalia Fredy Restrito, a rede precisa oferecer não só produto, mas também treinamento de assistência técnica e reposição de peças com prazo previsível em qualquer unidade.
Quarto passo: cumprir a lei e escolher o franqueado certo
A Lei 13.966, de 2019, determina que a Circular de Oferta de Franquia seja entregue ao candidato pelo menos dez dias antes da assinatura do contrato ou do pagamento de qualquer taxa. O documento reúne informações sobre a franqueadora, investimento estimado, obrigações das partes e perfil do franqueado desejado.
A seleção de quem representará a marca é tão importante quanto o documento. Investidor que só aplica capital e operador que trabalha na loja exigem modelos de suporte diferentes. Para Fredy Restrito, que vê a expansão por franquias como parte da profissionalização do mercado de mobilidade elétrica, essa escolha pesa na qualidade do atendimento que o cliente encontrará em cada nova cidade.
O que uma franquia multiplica de verdade
Franquear, na visão de Fredy Restrito, não é copiar lojas. É replicar um conjunto de decisões que já foi testado, corrigido e escrito. Quando isso acontece, uma empresa nascida numa região passa a gerar empregos e movimentar fornecedores em lugares onde o fundador nunca pisou.
Esse é o ponto em que um negócio regional ganha projeção nacional sem perder a origem. A marca leva consigo o jeito de trabalhar de onde nasceu, e cada nova unidade passa a testar, em outro mercado, se aquele método resiste longe de casa.