Carteiras associadas ao Lazarus Group aparecem na maior corretora descentralizada de derivativos do mundo justamente quando o governo Trump avalia trazer a plataforma para o mercado regulado americano
Uma investigação divulgada pela CoinDesk neste fim de semana identificou carteiras vinculadas ao Lazarus Group, o grupo de hackers apoiado pelo governo da Coreia do Norte, movimentando mais de US$ 30 milhões em bitcoin dentro da Hyperliquid nas últimas três semanas. Os dados foram levantados pela empresa de análise on chain Arkham, a pedido do próprio veículo, e reacendem o debate sobre os riscos de lavagem de dinheiro em corretoras descentralizadas.
A Hyperliquid é hoje a maior plataforma de derivativos cripto sem intermediários centrais, permitindo que usuários operem diretamente a partir de suas carteiras digitais, sem passar por processos tradicionais de verificação de identidade. É justamente esse modelo, criado para garantir liberdade e velocidade nas transações, que hoje preocupa autoridades e concorrentes do setor financeiro tradicional.
O que os dados on chain mostram
Segundo o levantamento da Arkham, os recursos entraram na plataforma em bitcoin e, na sequência, foram convertidos em ether e em solana. Depois dessa troca, os valores foram transferidos por diferentes redes, entre elas Tron, Solana e Ethereum, até chegarem a corretoras centralizadas como Kraken, LBank e KuCoin. Esse tipo de rota, com múltiplas conversões e pontes entre blockchains, é uma tática recorrente usada para dificultar o rastreamento de fundos de origem ilícita.
As carteiras em questão já haviam sido apontadas em 2024 pelo investigador independente ZachXBT, que associou o mesmo conjunto de endereços ao Lazarus Group e a cerca de US$ 61 milhões em fundos roubados na época. A CoinDesk destacou que a movimentação atual não representa uma nova identificação das carteiras, mas sim a continuidade de uma atividade já monitorada pela comunidade de segurança cripto.
Vale reforçar que o valor de US$ 30 milhões refere-se especificamente à etapa do fluxo que passou pela Hyperliquid, e não ao total movimentado pelo grupo no período. Segundo outro levantamento citado pela Crypto Times, as saídas identificadas com participação do Lazarus somaram mais de US$ 52 milhões entre 30 de julho e 28 de agosto, considerando diferentes serviços e não apenas a Hyperliquid.
Coincidência de tempo levanta questões regulatórias
O momento da descoberta chama atenção porque coincide com um movimento da administração de Donald Trump para tentar trazer a Hyperliquid para dentro do arcabouço regulatório dos Estados Unidos. Segundo reportagens recentes, há conversas em andamento para viabilizar uma versão da plataforma acessível a investidores americanos sob supervisão de órgãos como a CFTC, a comissão que regula contratos futuros e derivativos no país.
Esse tipo de estrutura, que dispensa abertura de conta em corretora tradicional, torna mais difícil para reguladores aplicarem mecanismos de checagem de sanções no nível do usuário final. Não é a primeira vez que endereços ligados à Coreia do Norte aparecem associados à Hyperliquid. Em dezembro de 2024, uma pesquisadora de segurança da MetaMask identificou carteiras suspeitas operando na plataforma desde outubro daquele ano, o que na época gerou saques líquidos de cerca de US$ 250 milhões em um único dia. À época, a Hyperliquid afirmou que não houve invasão nem perda de fundos de usuários.
Histórico do Lazarus Group preocupa autoridades internacionais
O Lazarus Group está sob sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos desde 2019 e é apontado como responsável por alguns dos maiores roubos já registrados no setor cripto, incluindo o ataque de US$ 625 milhões à rede Ronin, em 2022. De acordo com a empresa de análise blockchain Chainalysis, o regime norte-coreano teria movimentado cerca de US$ 2 bilhões em criptoativos roubados apenas em 2025, o que tornaria o ano mais rentável já registrado para esse tipo de atividade. Já a CertiK estima que, desde 2016, o país tenha acumulado aproximadamente US$ 6,75 bilhões roubados em 263 incidentes distintos.
Analistas ouvidos por veículos internacionais apontam que recursos obtidos dessa forma costumam ser direcionados ao financiamento de programas de armamento do regime, o que motiva o interesse contínuo de órgãos como a ONU, que mantém sanções ao país desde 2006 relacionadas a armas, minerais e serviços financeiros.
Resposta das exchanges e próximos passos
A Kraken informou que trabalha em parceria com empresas de análise blockchain para bloquear entradas de recursos vinculados a carteiras sancionadas. A CoinDesk, por sua vez, afirmou não ter conseguido confirmar a identidade dos titulares das contas que receberam os fundos nas corretoras mencionadas, nem se essas plataformas tinham conhecimento da origem dos valores no momento das transações. A Hyperliquid não respondeu aos pedidos de posicionamento até o fechamento da reportagem original.
O episódio deve alimentar ainda mais o debate sobre até que ponto plataformas descentralizadas podem operar dentro de mercados regulados sem comprometer os mecanismos de combate à lavagem de dinheiro. Para investidores e usuários do setor cripto, o caso reforça a importância de acompanhar de perto qualquer notícia envolvendo segurança em exchanges, ainda mais em um momento de crescente interesse institucional pelo mercado de derivativos digitais.
Fontes:
- https://www.coindesk.com/business/2026/08/31/north-korean-hackers-are-moving-tens-of-millions-on-hyperliquid-as-trump-pushes-to-onshore-the-crypto-platform
- https://crypto.news/lazarus-moves-30m-through-hyperliquid-us-talks-advance/
- https://cryptodaily.co.uk/2026/09/lazarus-linked-wallets-30m-hyperliquid-hyperunit