Todo ciclista que treina com potência conhece a sigla FTP, o limiar funcional de potência que define, em watts, o esforço máximo sustentável por cerca de uma hora. Rolando Bonaccorsi, executivo de operações que divide a rotina entre gestão de tecnologia e ciclismo de estrada, aponta uma semelhança pouco explorada: gerir energia pessoal ao longo da semana segue lógica parecida com pedalar dentro das zonas certas.
A tentação, tanto na bike quanto na cadeira do escritório, é sair forte demais no início e pagar caro pelo excesso nas horas seguintes. Entender como o corpo e a mente respondem a diferentes intensidades de esforço é conhecimento que atravessa fronteiras entre esporte e liderança, e é exatamente por isso que o tema merece mais atenção do que costuma receber.
O que o FTP realmente mede?
Diferente do que muitos iniciantes pensam, o FTP não é o esforço máximo absoluto de um ciclista, e sim o teto sustentável antes que o corpo entre em dívida metabólica acelerada. Abaixo desse limiar, o organismo recicla lactato com relativa eficiência. Acima dele, a fadiga se acumula de forma exponencial, não linear, o que explica por que poucos minutos de excesso custam mais do que parecem.
Treinar por zonas de potência, calculadas a partir de percentuais do FTP, permite que cada sessão tenha um propósito fisiológico claro: recuperação ativa, resistência de base, limiar ou capacidade anaeróbica. Ferramentas como TrainingPeaks tornaram esse acompanhamento acessível a ciclistas amadores, algo que há uma década era restrito a equipes profissionais com suporte de fisiologistas dedicados.
A dívida metabólica também existe na rotina executiva
A analogia com a semana de trabalho não é apenas retórica. Assim como o corpo acumula fadiga de forma não linear acima do limiar, a mente executiva acumula desgaste cognitivo de maneira semelhante quando opera continuamente em modo de urgência. Reuniões emergenciais seguidas, sem pausas de recuperação, produzem efeito parecido com pedalar repetidamente acima do FTP.
Na visão de Rolando Bonaccorsi, líderes que aprendem a reconhecer seus próprios sinais de sobrecarga tomam decisões melhores justamente por saberem quando recuar estrategicamente de um problema, em vez de insistir em ritmo insustentável até o esgotamento. Esse tipo de autoconhecimento, comum entre atletas que monitoram variabilidade da frequência cardíaca, ainda é raro na cultura corporativa tradicional.
Periodização como antídoto ao improviso
Ciclistas sérios não decidem o treino do dia por impulso. Seguem um plano de periodização construído com meses de antecedência, alternando blocos de carga alta com semanas de recuperação programada, a chamada periodização em blocos. Esse planejamento reduz o risco de overtraining e maximiza o ganho de forma física no momento certo, próximo às provas mais importantes da temporada.
De acordo com a análise de Rolando Bonaccorsi, a mesma lógica se aplica à gestão de projetos e equipes de tecnologia. Alocar recursos e energia da liderança sem previsibilidade, tratando toda semana como sprint final, é receita para desgaste precoce de times inteiros. Empresas de alta maturidade operacional planejam ciclos de intensidade da mesma forma que um treinador planeja a temporada de um atleta.
Recuperação como parte do treino, não como sua ausência
Um erro comum entre ciclistas amadores é tratar os dias de descanso como tempo perdido. Fisiologicamente, é durante a recuperação que o corpo consolida as adaptações provocadas pelo estímulo do treino, fortalecendo capilares, mitocôndrias e a capacidade de utilização de oxigênio. Sem esse período, o esforço acumulado simplesmente se transforma em fadiga crônica, sem ganho real de performance.
Sob essa perspectiva, Rolando Bonaccorsi destaca que equipes de tecnologia sofrem do mesmo equívoco quando tratam pausas estratégicas, retrospectivas e até férias como interrupções ao progresso, em vez de parte do processo que sustenta performance de longo prazo. A cultura de estar sempre ligado, tão comum em operações críticas, tende a produzir resultados piores no médio prazo do que uma cultura que respeita ciclos de esforço e recuperação.
O ciclismo de estrada funciona como um laboratório honesto sobre gestão de energia, porque os números do medidor de potência não mentem e o corpo cobra a conta de qualquer excesso de forma imediata. Trazer essa disciplina para a rotina executiva não é romantismo esportivo, é reconhecer que energia, assim como watts, é recurso finito que precisa ser administrado com a mesma seriedade dedicada a orçamento e cronograma.