O empresário Alfredo Moreira Filho alude que a ideia de que cada pessoa carrega uma única identidade regional, ligada apenas ao lugar de nascimento, ignora por completo um fenômeno comum entre quem migra repetidamente ao longo da vida por diferentes estados do país. Trajetórias como a de Alfredo Moreira Filho, que passou pela Bahia, por Minas Gerais, pelo Amazonas e pelo Pará antes de se estabelecer em Brasília, mostram como identidade regional pode ser algo cumulativo, e não fixo desde a origem.
A identidade regional nasce em um lugar e cresce em outros
A maioria das pessoas nasce e permanece em um mesmo estado ou região por toda a vida, o que reforça a associação entre identidade pessoal e local de origem. Nesses casos específicos, sotaque, hábitos alimentares e referências culturais tendem a permanecer relativamente estáveis ao longo do tempo, sem grande necessidade de adaptação a contextos muito diferentes do original.
Quando a trajetória envolve migração para regiões muito diferentes, esse quadro muda. Cada novo lugar de residência prolongada tende a deixar marcas específicas, seja em vocabulário, seja em costumes cotidianos, seja na forma de se relacionar com outras pessoas, criando camadas sucessivas de identidade em vez de substituir completamente a anterior. Diferentemente de uma mudança rápida ou temporária, anos de residência em um novo lugar costumam consolidar essas marcas de forma permanente, mesmo depois de uma nova mudança de região.
Como múltiplas regiões deixam marcas simultâneas?
Quem vive anos em determinada região absorve, de forma quase inevitável, parte de sua cultura local: expressões regionais, hábitos de convivência, referências que passam a fazer parte do repertório pessoal. A absorção ocorre independentemente da intenção consciente de se adaptar, apenas pelo convívio prolongado com aquele ambiente. Alimentação, forma de contar o tempo e até o ritmo de conversa cotidiana costumam absorver influências do lugar em que a pessoa passa a maior parte de determinado período da vida.
A história e vivência de Alfredo Moreira Filho, com passagens por Salvador, Ituberá, Viçosa, Itacoatiara, Manaus e Tucumã antes de Brasília, envolvem exatamente esse tipo de acúmulo sucessivo de referências culturais distintas, cada uma associada a uma etapa diferente da vida.

Por que essa identidade múltipla passa despercebida?
Diferente de uma bandeira ou de um documento de identidade, que registra apenas um estado de nascimento, a identidade cultural acumulada ao longo de migrações sucessivas raramente aparece de forma explícita em qualquer registro formal. Ela se manifesta em detalhes sutis, muitas vezes percebidos apenas por quem convive de perto com a pessoa, expressa Alfredo Moreira Filho.
Esse tipo de identidade múltipla também tende a passar despercebido pela própria pessoa, que pode não perceber conscientemente que carrega traços de várias regiões distintas ao mesmo tempo, até que uma situação específica evidencie essa mistura de referências, como uma conversa com alguém de uma das regiões por onde essa pessoa passou anos antes, trazendo à tona expressões ou hábitos há muito esquecidos.
O valor prático de carregar múltiplas identidades regionais
Além do aspecto cultural, esse tipo de trajetória multirregional costuma gerar vantagens práticas: maior facilidade para se relacionar com pessoas de origens diferentes, repertório mais amplo de referências para resolver problemas e menor estranhamento diante de costumes distintos dos de origem. Essa vantagem tende a aparecer com mais clareza justamente em negociações ou relações profissionais que reúnem pessoas de diferentes partes do país, situações em que reconhecer rapidamente costumes regionais alheios pode evitar mal-entendidos evitáveis.
No caso de Alfredo Moreira Filho, décadas de vivência em regiões tão diferentes quanto a Bahia rural e o Distrito Federal ajudam a explicar um repertório pessoal difícil de reproduzir por quem nunca saiu do lugar de origem. Passar por tantos contextos distintos ao longo de uma vida raramente é planejado como estratégia; na maioria das vezes, o repertório só se revela útil bem depois, quando a pessoa já não vive em nenhum dos lugares por onde passou.