Fundos negociados em bolsa atraíram cerca de US$ 170 milhões na segunda-feira, revertendo saída de US$ 61,5 milhões da semana anterior, enquanto tensões geopolíticas e decisão do Federal Reserve seguem pesando sobre o apetite ao risco
O mercado de criptomoedas voltou a receber capital institucional via ETFs de Bitcoin nesta segunda-feira, primeiro pregão positivo de agosto para esses fundos. Segundo o CEO da Boost Research, André Franco, a captação girou em torno de US$ 170 milhões, encerrando uma sequência de três semanas consecutivas de entradas que havia sido interrompida por uma saída líquida de US$ 61,5 milhões na semana anterior. O movimento acontece em um momento de instabilidade macroeconômica, com o Federal Reserve adotando tom mais firme sobre a meta de inflação de 2% e as tensões no Oriente Médio pressionando o preço do petróleo.
Apesar da retomada dos fluxos, o comportamento do mercado ainda é considerado frágil. O índice Fear & Greed, que mede o sentimento dos investidores em relação a criptoativos, recuou de 28 para 25 pontos, entrando em território de medo extremo justamente no dia em que o preço do bitcoin subia. Para Franco, esse descompasso é o detalhe mais relevante da sessão: o mercado voltou a comprar antes de voltar a acreditar, o que sugere um reposicionamento cauteloso por parte dos grandes investidores, e não necessariamente uma retomada de confiança consistente.
Esse padrão de idas e vindas já havia aparecido antes. Em meados de julho, os ETFs de Bitcoin à vista nos Estados Unidos registraram uma entrada líquida de US$ 197,4 milhões, interrompendo uma sequência de oito semanas seguidas de saídas que vinha desde maio. Na ocasião, analistas também classificaram o movimento como prematuro para falar em recuperação consistente da demanda institucional, já que a maior parte dos ganhos veio concentrada em um único fundo, o iShares Bitcoin Trust, da BlackRock, enquanto outros produtos, como o Grayscale Bitcoin Trust, ainda registravam saídas.
Fatores macroeconômicos continuam no centro das atenções
O cenário externo segue sendo o principal fator de risco para o mercado cripto neste momento. Estados Unidos e Irã negociam a reabertura total do Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes para o transporte global de petróleo, e o presidente Donald Trump classificou a proposta como a última oportunidade para o Irã. O país nega estar em negociação direta, mas admite manter um canal de comunicação por meio de Omã. Esse tipo de tensão geopolítica costuma elevar o preço do petróleo e, por consequência, pressionar ativos considerados de maior risco, entre eles as criptomoedas.
Além do fator geopolítico, o mercado também monitora de perto os próximos passos do Federal Reserve. O tom mais duro adotado pela nova diretoria em relação à meta de inflação reduziu as apostas em cortes de juros que dominavam as projeções no início do ano. Isso altera o custo de oportunidade de manter posições em ativos que não geram renda fixa, como o bitcoin, e ajuda a explicar por que o ativo perdeu parte da força que vinha demonstrando nas semanas anteriores. Especialistas apontam que essa combinação de juros mais altos e instabilidade internacional tende a manter a volatilidade elevada no curto prazo.
Analistas como Markus Thielen, fundador da 10x Research, também chamam atenção para um padrão sazonal observado nos últimos meses: o bitcoin costuma ter desempenho melhor na primeira quinzena do mês, para depois se consolidar ou perder força na segunda metade. Combinado com a sazonalidade historicamente mais fraca de agosto e setembro para o ativo, esse fator técnico se soma às incertezas macroeconômicas para formar um quadro de cautela entre gestores de recursos.
Regulação nos Estados Unidos segue como variável de fundo
Outro elemento que continua influenciando o humor institucional é o andamento do Clarity Act, projeto de lei que busca definir de forma clara se um token digital deve ser tratado como valor mobiliário ou como commodity nos Estados Unidos. O texto avançou na Câmara, mas foi temporariamente colocado em segundo plano no Senado, que priorizou outras pautas, como sanções à Rússia e indicações federais, antes do recesso de verão previsto para começar na primeira semana de agosto.
A janela política para uma votação ainda em 2026 está se estreitando. Caso o Senado não avance com o texto antes do recesso, o tema deve voltar à pauta somente em setembro, já em um cenário dominado pela proximidade das eleições de meio de mandato. Mercados preditivos vinham precificando uma probabilidade de aprovação próxima de 40% para o Clarity Act neste ano, e qualquer sinalização de avanço ou atraso costuma se refletir rapidamente no preço do bitcoin, dado o peso que o setor atribui à segurança jurídica como condição para atrair mais capital institucional.
A ausência de uma definição regulatória clara nos Estados Unidos é apontada por gestores como um dos principais motivos para a cautela que ainda domina o mercado, mesmo diante de dados de captação positivos. Enquanto o Congresso americano não retoma a discussão, o fluxo de ETFs deve continuar sensível a notícias pontuais, sem configurar uma tendência consolidada de recuperação. Essa dinâmica reforça a leitura de que o mercado cripto, mesmo mais maduro do que em ciclos anteriores, segue fortemente conectado ao noticiário macroeconômico e político internacional.
Mercado brasileiro observa desdobramentos de perto
No Brasil, o movimento também é acompanhado com atenção pelos reguladores locais. A Comissão de Valores Mobiliários já vem monitorando os desdobramentos do Clarity Act para calibrar sua própria abordagem em relação à classificação de tokens digitais. O marco regulatório brasileiro de criptoativos, aprovado em 2022, deixou propositalmente essa classificação em aberto, à espera de definições internacionais mais consolidadas, o que faz com que o desfecho da discussão nos Estados Unidos tenha impacto direto sobre a forma como o setor será regulado por aqui.
Para investidores institucionais, o cenário de agosto costuma ser historicamente mais fraco para o bitcoin, o que aumenta a atenção sobre os próximos movimentos de captação dos ETFs. A combinação entre juros mais altos, tensão geopolítica ativa e uma pauta regulatória ainda pendente no Senado americano forma um conjunto de variáveis que deve continuar orientando o apetite ao risco nas próximas semanas. É importante reforçar que qualquer decisão de investimento em criptoativos deve levar em conta a alta volatilidade do setor e os riscos envolvidos, sem se basear apenas no otimismo pontual de um único pregão positivo.
Fontes:
TradingView News / Cointelegraph
CoinDesk
Cointelegraph Brasil
BlockTrends