O Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu uma revisão periódica do Financial Sector Assessment Program (FSAP), programa usado para analisar a estabilidade, a supervisão e a capacidade de resposta a crises nos sistemas financeiros nacionais. Divulgada em 21 de setembro de 2026, a atualização amplia o olhar sobre os riscos que podem afetar a economia global.
A principal mudança é a adoção de uma abordagem mais flexível e orientada por riscos. Além dos bancos tradicionais, o programa deverá observar com maior atenção instituições financeiras não bancárias, infraestruturas de mercado, digitalização, inteligência artificial, criptoativos — incluindo stablecoins —, riscos cibernéticos e impactos financeiros associados às mudanças climáticas.
De acordo com o Fundo Monetário Internacional, a revisão foi concluída pelo Conselho Executivo em 3 de setembro de 2026. A divulgação posterior apresenta a atualização como uma evolução na forma de examinar a estabilidade financeira, sem criar, por si só, uma nova regra imediata para bancos, fintechs ou emissores de ativos digitais.
Por que o foco deixa de estar apenas nos bancos
O sistema financeiro reúne atualmente participantes com funções cada vez mais interligadas. Empresas de tecnologia podem oferecer serviços de pagamento, crédito ou gestão de recursos, enquanto fundos, plataformas digitais, bolsas e sistemas de compensação desempenham funções relevantes para o funcionamento dos mercados. Essa aproximação torna menos nítida a fronteira entre instituições bancárias e não bancárias.
Na prática, uma empresa que não opera como banco tradicional ainda pode ter importância para a estabilidade financeira. Uma dificuldade de liquidez ou uma interrupção operacional em uma instituição não bancária pode afetar parceiros, clientes e outras estruturas conectadas. Por isso, a avaliação de riscos financeiros precisa considerar não apenas o balanço individual de cada empresa, mas também as relações entre os diferentes participantes.
O FSAP também passa a dar maior destaque às infraestruturas de mercado, como sistemas de pagamentos, câmaras de compensação e plataformas de liquidação. Esses mecanismos sustentam a transferência de recursos e a conclusão das operações. Quando apresentam falhas ou sofrem choques, podem transmitir efeitos para várias instituições, mesmo que o problema tenha começado fora do setor bancário convencional.
Inteligência artificial e stablecoins entram no radar
A inteligência artificial aparece na revisão como uma tecnologia capaz de alterar o perfil dos riscos financeiros. Seus modelos podem apoiar análises, controles e avaliações de crédito, mas também levantam questões sobre validação, proteção de dados, responsabilidade por decisões automatizadas e concentração de serviços em poucos provedores.
O FMI defendeu ainda o uso de inteligência artificial no próprio processo de avaliação do FSAP, desde que sejam adotadas salvaguardas. A orientação indica que os benefícios da tecnologia precisam ser acompanhados por mecanismos capazes de reduzir falhas de modelo, problemas de governança e riscos relacionados à dependência tecnológica.
Os criptoativos, incluindo as stablecoins, também foram incorporados ao escopo ampliado. Esses ativos podem estar conectados a pagamentos, plataformas digitais e mercados financeiros. A inclusão no programa não significa uma classificação automática de risco ou uma regra universal para o setor, mas mostra que o FMI considera necessário analisar como esses instrumentos se relacionam com o restante do sistema.
Alcance internacional do programa
Segundo o Banco Mundial, o Financial Sector Assessment Program é uma iniciativa voltada à análise da resiliência e do desenvolvimento dos sistemas financeiros dos países. Nas economias emergentes e em desenvolvimento, os estudos costumam ser realizados em parceria entre o Banco Mundial e o FMI. Em países avançados, a avaliação é conduzida pelo próprio FMI.
Desde 1999, o programa realizou 416 avaliações em 161 países, conforme os dados divulgados pelo FMI. O alcance geográfico ajuda a explicar a relevância da revisão: as recomendações não se limitam a uma jurisdição específica e podem servir de referência para governos, supervisores, organismos multilaterais e entidades responsáveis pela definição de padrões financeiros.
A ampliação do escopo ocorre em um momento de transformação estrutural do setor. Pagamentos digitais, novas formas de crédito, plataformas tecnológicas e ativos virtuais aproximam empresas que antes atuavam em segmentos separados. Para autoridades e supervisores, o desafio passa a ser acompanhar os pontos de conexão capazes de transformar um problema localizado em uma perturbação mais ampla.
Com a revisão, o FSAP passa a refletir uma visão mais abrangente da estabilidade financeira. O programa continuará avaliando bancos e estruturas tradicionais, mas deverá considerar também tecnologia, infraestrutura, instituições não bancárias, cibersegurança, criptoativos e mudanças climáticas. Para consumidores e empresas, esse movimento pode influenciar a forma como autoridades analisam a segurança dos pagamentos, a continuidade de serviços digitais e a resposta a futuras crises.